Suzana Maria de França Alves da Silva, professora de Biologia em uma escola pública da região de João Pessoa, na Paraíba, chegou a questionar se continuaria na profissão. O desânimo, comum entre docentes da rede básica, quase a fechou as portas da sala de aula. “As aulas eram um desafio constante, os alunos eram apenas ouvintes passivos”, disse.
Segundo a pesquisa “Perfil e Desafios dos Professores da Educação Básica no Brasil”, realizada pelo Instituto Semesp e publicada no ano passado, 79,4% dos professores já cogitaram abandonar a profissão, enquanto mais de 65% relatam sentir insegurança, desânimo e frustração quanto ao futuro profissional.
Em meio ao desgaste da rotina, Suzana encontrou um novo rumo no mestrado profissional ProfBio. O curso funciona de uma maneira diferente do mestrado tradicional, integrando a atuação em sala de aula – um requisito obrigatório para ingressar no programa –, com a constante atualização dos conteúdos e das metodologias de ensino.
“A possibilidade de fazer um mestrado específico para o ensino de biologia poderia ser o que eu precisava, como ‘última cartada’, para reacender a paixão por ensinar”, relembra. Sob a orientação do Prof. Dr. Fernando Ferreira de Morais, atual coordenador do Laboaa, o programa não só embasou cientificamente o projeto, mas também incentivou a professora a repensar cada aspecto de sua prática pedagógica.
Transformando o espaço da escola, educação enraizada na realidade
Para seu projeto de mestrado, Suzana abraçou uma proposta desafiadora e inovadora: transformar a tradicional horta escolar em um “Laboratório Vivo”. O objetivo não seria produzir alimentos, mas ser um ambiente repleto de biodiversidade, onde as relações ecológicas se desenrolam continuamente. O laboratório vivo serve como um campo de experimentação e investigação, permitindo que os alunos compreendessem, na prática, os conceitos de biologia. “Pensar em uma horta para as aulas práticas e investigativas já era uma ideia excelente, porém, uma horta na escola é comumente relacionada à produção de alimentos. O Laboratório Vivo tem um propósito mais abrangente”, explica Suzana.
O ponto de partida foi um antigo terreno baldio nos fundos da escola, que, com o engajamento dos próprios alunos, ganhou nova vida. “A ideia de termos uma “horta” na escola surgiu dos próprios estudantes, assim, não foi difícil o engajamento de muitos deles”, conta Suzana. A gestão escolar aprovou o projeto imediatamente, e a mobilização dos estudantes impulsionou a participação de professores, funcionários e pais.
Parte da bolsa do mestrado de Suzana foi direcionada para a contratação de ajuda na limpeza e organização do terreno, na confecção de um desenho em formato de mandala para o plantio e na aquisição dos materiais necessários, como ferramentas, esterco bovino e insumos para a compostagem. Toda essa movimentação acontecia em seu tempo livre.
Para fazer a teoria e a prática caminhar lado a lado, Suzana estruturou uma sequência didática, mas longe de um roteiro engessado. A ideia é convidar os alunos a mergulharem no universo da Ecologia, onde cada aula é planejada para conectar os ensinamentos tradicionais a experiências que os alunos podem viver fora da sala de aula, no Laboratório Vivo.
Durante as investigações, os estudantes registram suas observações em diários de campo, tiram fotos e gravam vídeos. Tudo isso enquanto acompanham o crescimento das plantas e observam as interações entre os seres vivos e o ambiente, frutos da transformação do espaço.
“Cada aula abordou um conceito-chave da Ecologia, e os alunos puderam ver, na prática, como os fatores abióticos e bióticos interagem e transformam o ambiente.”
A ideia do ensino por investigação é romper com a rotina de decorar conceitos para provas, permitindo que os alunos construam conhecimento de forma significativa e participativa. É fazer os estudantes deixarem de apenas absorver informações e passarem a questionar, testar hipóteses e desenvolver um olhar crítico para o seu cotidiano. É um trabalho para despertar o interesse pela ciência e pela busca de soluções para problemas reais.
Com isso, o Laboratório Vivo não se tornou apenas um espaço de aprendizado, mas um reflexo do próprio espaço escolar. Ao longo do tempo, o solo foi enriquecido pela compostagem feita pelos alunos, e a diversidade de plantas começou a atrair insetos, pássaros e outros pequenos animais. Tudo era matéria-prima para as aulas de Suzana. O projeto proporcionou momentos surpreendentes e emocionantes. Um dos mais marcantes aconteceu quando os alunos começaram a explorar os diversos habitantes escondidos na vegetação e na compostagem, conta.
“Por mais que pareçam uma coisa só, existem várias espécies naquele ecossistema, que se não afiar o olho pode perder a beleza da Ecologia.” Diz o diário de campo de um dos alunos. Com a ajuda do Google Lens, os alunos identificaram diferentes espécies no local. Uma descoberta particularmente fascinante foram as “microminhocas” que surgiram em grande quantidade no experimento de compostagem em garrafa PET. Esses pequenos organismos, na verdade enquitreídeos – parentes próximos das minhocas –, puderam ser observados ao microscópio, revelando um mundo invisível a olho nu.
Impacto para além das aulas de biologia
O projeto de Suzana despertou um senso de pertencimento e responsabilidade nos estudantes, que passaram a enxergar a escola não só como um espaço de ensino, mas como um lugar onde podem construir algo concreto e significativo. Muitos pais, que antes não frequentavam a escola, começaram a se envolver mais diretamente nas atividades escolares, atraídos pelo interesse dos filhos no projeto.
As visitas à escola aumentaram, e o espaço da horta se tornou um cartão de visita da escola, despertando a curiosidade tanto dos moradores do bairro quanto de outros membros da comunidade. Isso possibilitou interações mais frequentes e próximas entre os professores, os alunos e suas famílias, estreitando os laços e criando um ambiente de colaboração mais forte, diz Suzana.
“Inclusive vão à escola nos finais de semana, depois das aulas e no período de recesso e férias, para não deixar as plantas morrerem. Eles produzem mudas, fazem o trabalho de colheita e replantio quando necessário, monitoram a irrigação, fazem pesquisas sobre quais plantas poderiam ser cultivadas, etc. Eles têm o apoio e orientação minha. Sempre há trocas de conhecimento e muito diálogo."
A sustentabilidade do projeto também tem sido uma conquista importante para Suzana e seus alunos. Hoje a escola possui um espaço dedicado à compostagem das cascas de ovos, frutas e verduras provenientes da cozinha escolar, o que ajuda a gerar matéria orgânica para adubo.
Além disso, as folhas resultantes das podas, e aquelas que caem naturalmente, desempenham um papel importante ao cobrir o solo, evitando a evaporação excessiva da água e enriquecendo-o com nutrientes. Tudo isso garante que o Laboratório Vivo continue sendo um ambiente fértil de aprendizado.
Perspectivas futuras
Com a experiência acumulada ao longo dos seus dois anos de mestrado, Suzana vê um horizonte promissor para o Laboratório Vivo, com planos de ampliar e diversificar ainda mais suas atividades. O “Clube da Horta”, idealizado pelos alunos, é uma das primeiras iniciativas para garantir a continuidade do projeto.
A ampliação das atividades também está nos planos de Suzana. Ela deseja diversificar ainda mais as práticas pedagógicas, integrando o Laboratório Vivo a novas áreas do conhecimento e ampliando a atuação do projeto na comunidade escolar. Suzana oferece uma mensagem de encorajamento aos seus colegas de profissão, baseada em sua própria experiência:
“Eu diria que inovar na educação não depende apenas de grandes recursos, mas sim de criatividade, estratégia e sensibilidade. Muitas vezes, a inovação está em como ensinamos, e não necessariamente no que utilizamos para isso. Se olharmos ao redor, perceberemos que há infinitas possibilidades dentro do próprio contexto escolar. Uma simples mudança na forma de conduzir uma aula, como trazer reflexões, experimentações, projetos colaborativos ou até mesmo utilizar o próprio ambiente escolar como recurso didático, já pode ser um grande passo para inovar.
Além disso, inovar não significa fazer tudo sozinho. Construir parcerias dentro e fora da escola, envolver os alunos como protagonistas e utilizar materiais acessíveis pode tornar as ideias viáveis. O mais importante é começar de algum lugar, por menor ou mais simples que seja uma mudança. O que faz a diferença não é o tamanho dos recursos disponíveis, mas sim a disposição de transformar a aprendizagem em uma experiência significativa para nossos alunos.”
No final do ano passado, Suzana recebeu o prêmio Mestres da Educação pelo seu trabalho desenvolvido na escola. O Prêmio Mestres da Educação, do governo do estado da Paraíba, incentiva professores a desenvolverem práticas pedagógicas alinhadas à equidade, recomposição das aprendizagens e protagonismo estudantil, com impacto direto nas avaliações internas e externas dos estudantes.